Numa pequena mas muito bonita cidade vivia uma família: o pai André, a mãe Ana, as filhas Milena e Amélia. Quando as meninas ainda eram pequenas, a família era muito unida. A mãe e o pai sempre sonharam com duas filhas, e quando o seu sonho acalentado se realizou, não cabiam em si de felicidade. Na família organizavam-se frequentemente festas, a mãe fazia tartes e ao fim da tarde toda a família reunia-se na grande sala luminosa. Toda a família fazia um animado lanche.
No inverno, toda a família ia à colina andar de trenó, no verão iam ao rio nadar e jogar badminton. No outono, todos entravam no carro e iam à floresta apanhar cogumelos, e na primavera plantavam flores em todo o quintal, que floresciam até ao outono. E assim teriam vivido, alegrando-se e amando-se uns aos outros, se não fosse um belo dia…
Desde manhã nada prenunciava desgraça. As crianças foram para a escola, a mãe e o pai para o trabalho, e quando regressaram, encontraram na caixa de correio um estranho telegrama: "Estou a chegar. Esperem-me. Tia Edviges".
A tia Edviges era uma parente distante do pai. Vivia numa pequena aldeia abandonada perto do cemitério, não tinha nem gato nem cão, muito menos filhos, nunca amou ninguém e até diziam que andava com forças malignas.
Para que será isto? Tantos anos sem nos vermos.
Disse o pai André.
Sim, estranho. Mas talvez, depois de tantos anos, a tia Edviges tenha mudado.
Supôs a mãe.
Viva, viva!
Gritaram as crianças. Adoravam quando vinham visitas. Elas não sabiam como a sua parente era má e invejosa.
Nesse dia, desde manhã, chovia. O céu estava coberto de nuvens, relampejava, ouviam-se constantemente estrondos trovejantes. Soprava um vento tão terrível e as árvores balançavam com tal força assustadora que parecia que iam partir-se e com toda a sua copa frondosa desabar sobre a casa.
Bateram à porta. As crianças correram a receber a visita, rindo alto e gritando: "A tia, a tia chegou! Viva!".
À porta estava Edviges. Imediatamente bateu com o guarda-chuva em Milena, beliscou Amélia e resmungou:
Calem-se já! Não gosto quando há miúdos a andar por perto a perturbar a minha paz.
E começou uma vida terrível. Todos os dias na família havia discussões. As crianças deixaram completamente de obedecer aos pais, o pai e a mãe discutiam todos os dias até por pequenas coisas. A família desmoronava-se, ninguém mais passeava junto, não se faziam lanches nem festas, todos ficavam nos seus quartos. E se acontecia uma desgraça a alguém, os outros só se alegravam.
Um dia ouviu-se uma batida. Ao abrir a porta, o pai viu no tapete um envelope. Dentro estava um bilhete para um navio para toda a família. André já tinha esquecido como outrora conversara com os seus colegas no trabalho e como sonhara em voz alta com tal viagem de navio com toda a família. Talvez algum deles tivesse decidido ajudar?
Tinham de partir já no dia seguinte, todos começaram a fazer as malas, sem desconfiar que foi Edviges quem decidiu destruí-los definitivamente, enfeitiçando a viagem para uma desgraça mortal — um naufrágio.
No segundo dia da viagem, desde manhã o céu estava coberto de nuvens pesadas e assustadoras. A mãe e o pai continuavam a discutir, as irmãs também não faziam as pazes, e faziam constantemente maldades uma à outra. Nem repararam quando começou a tempestade. Ondas enormes batiam no navio de todos os lados, testando a resistência do seu casco. E eis que, não aguentando os golpes dos elementos, o navio rachou e começou simplesmente a partir-se em duas partes. No navio começou o pânico, os passageiros corriam para todo o lado, sem prestar atenção uns aos outros…
André abriu os olhos e ficou paralisado de horror. Onde estava? O que era isto? Onde estavam a mulher, as filhas? À volta estava uma floresta, o pai de família encontrava-se misteriosamente numa floresta. Mas que floresta era aquela! Todas as árvores olhavam para ele com olhos humanos, os pássaros em vez de penas tinham espinhos, e as plantas gemiam como se pedissem ajuda. Era uma floresta enfeitiçada. Reunindo as últimas forças, o pai começou a procurar Ana e as meninas.
Ana, Milena, Amélia! Onde estão?
Gritava André exausto e com esforço. Mas os gritos perdiam-se nos gemidos das plantas. De repente viu que um monte de formigas enormes com presas arrastava a mãe ferida para o formigueiro. Correu, agarrou desesperadamente a mulher pelo braço, começou a puxar e… de exaustão perdeu os sentidos. O pai voltou a si porque Ana o estava a molhar com água. Nela não havia uma única ferida.
André, não vais acreditar! É simplesmente um milagre! Neste riacho há água viva. Curou-me instantaneamente todas as feridas.
E a mãe apontou para o riacho que corria ali perto.
As crianças, as crianças, onde estão as nossas meninas!!! Temos de as procurar o mais depressa possível. Há tantos perigos aqui, e elas são tão indefesas!
Gritou o pai.
O pai e a mãe lançaram-se com as últimas forças a procurar as crianças. Ana e André corriam, gritavam e chamavam pelas filhas. Já as forças estavam no fim, perdida toda a esperança, a noite aproximava-se. De repente foram cegados por uma luz brilhante que apareceu debaixo da terra, e do céu desceu um caminho lunar. Estas duas luzes uniram-se, e diante deles surgiu uma estranha figura feminina, metade do seu corpo era negra como piche — trevas, e a outra metade branca brilhante — luz. Era a Soberana da Luz e das Trevas.
Procuram as vossas filhas? Deem as vossas vidas em troca das vidas delas, e eu devolvê-las-ei a casa!
Toma a minha!
Soluçou Ana.
E a minha!
Rugiu com as últimas forças André.
Diante deles a terra abriu-se, agarraram-se pelas mãos e saltaram para esse abismo. O precipício desapareceu imediatamente, a terra fechou-se e a luz apagou-se.
Entretanto as meninas acordaram na areia escaldante. À volta não havia nem árvore nem arbusto — era um verdadeiro deserto abrasador. A areia dourada brilhava sob os raios solares, no ar cheirava a algo muito adocicado, e ao longe ouviam música, como se fossem mil pássaros maravilhosos a emitir trinados suaves. As meninas pareciam ser embaladas, como na infância, no berço.
Tenho tanto sono.
Sussurrou baixinho Milena e fechou os olhinhos. Mas Amélia — a irmã mais velha, de repente lembrou-se de como na infância a mãe contava às meninas sobre areias movediças que arrastam para o abismo, de onde nunca se consegue sair.
Ela gritou:
Abre os olhos! Amo-te, mana! Temos de sair daqui, senão morremos e nunca salvaremos a mãe e o pai.
De repente uma força misteriosa apanhou as irmãs e como penas levou-as pelo ar. As meninas fecharam os olhos de medo e renderam-se a esta força misteriosa.
No meio da floresta enfeitiçada, na qual as árvores, flores e pássaros se tornaram vivos, brilharam com cores vivas e soaram com canções bondosas, junto ao riacho com água viva, de repente apareceu uma clareira, coberta de flores iridescentes e relva verde sedosa. No meio da clareira balançava um enorme balão de ar quente branco como a neve, pronto para levantar voo. Para que não levantasse voo antes do tempo, era retido por carvalhos poderosos com os seus ramos mágicos. O balão esperava os seus passageiros.
A mãe e o pai não morreram, aquela força misteriosa trouxe-os juntamente com as meninas para bordo do balão de ar quente. A família reuniu-se e todos exaustos, mas felizes, partiram numa longa viagem para casa. Ana, André e as meninas nunca souberam que esta difícil provação foi obra de Edviges, que nunca mais apareceu nas suas vidas. E a casinha em que a velhota vivia desapareceu completamente juntamente com a sua astuta, mentirosa e vil dona.
Desde esse momento a família tornou-se forte e unida. As irmãs partilhavam segredos uma com a outra, ajudavam os pais em tudo, e a mãe e o pai nunca mais discutiram, pois uma família unida é o mais importante!