Numa aldeia, numa casinha situada perto de um riacho, no quintal viviam dois galos. Todos os dias no galinheiro, onde também viviam galinhas poedeiras e pintainhos pequenos, havia muito barulho porque estes dois galos estavam sempre a provocar-se e a discutir um com o outro.
E discutiam e provocavam-se sempre por ninharias e pormenores insignificantes: um olhou de soslaio e de forma antipática, o outro gritou e cantou fora de horas.
Mas porque é que estão sempre a implicar um com o outro? Está um dia de sol maravilhoso e vocês outra vez com isso...
Perguntou o leitão, esticando o focinho da poça de lama onde se deliciava desde a manhã.
Ali perto, no estábulo, estava uma vaca a mastigar tranquilamente a sua erva.
Ela levantou lentamente a cabeça e, arrastando as palavras, disse devagar:
Mu-u-u, Mu-u-u! Que brigões, que desordeiros! E porque é que não conseguem viver em paz e sossego?
E continuou a mastigar a erva uniformemente.
Um dia os galos discutiram tão alto e durante tanto tempo que, com aquele barulho, todos os habitantes do quintal foram obrigados a reunir-se.
Cocorocó! Cocorocó! Venham todos, julguem-nos, por favor. Sozinhos não conseguimos resolver isto de maneira nenhuma!
Gritavam os galos com todas as forças.
E então, reuniram-se os gansos importantes, as galinhas irrequietas, os porcos vaidosos também deixaram as suas poças de lama favoritas e vieram para o centro do quintal. Todos os animais deixaram os seus afazeres e rodearam os galos agitados.
Os rivais pararam por momentos, afastaram-se um pouco um do outro, puseram as asas na cintura e perguntaram aos vizinhos do quintal:
Julguem! Quem de nós é o mais bonito e o mais vistoso? Digam, mas digam só a verdade, sem esconder nem embelezar nada. Quem tem as penas mais brilhantes? Quem tem a cauda mais comprida e fofinha? Quem tem a voz mais sonora?
Os animais e as aves calaram-se, ficaram a pensar em como responder corretamente às perguntas dos galos, como julgá-los. Ambos eram muito bonitos, ambos cantavam de forma alegre e sonora... Um mais bonito que o outro, sim senhor — difícil de escolher. Os animais pensaram durante muito tempo, deliberaram, discutiram e, no fim, enviaram um negociador aos galos em disputa.
Para o meio do quintal saiu o gato.
O bichano eriçou a cauda, alisou os bigodes, dos quais secretamente se orgulhava muito, miou baixinho e começou a falar:
Nós aqui pensámos, pensámos, e decidimos o seguinte... Vocês os dois, galos, são belezas de primeira. Todos na redondeza sabem que melhores galos do que os nossos não se encontram em nenhum quintal de toda a aldeia, nem mesmo em toda a região.
Como assim?! Quer dizer que as minhas penas são tão brilhantes, compridas e bonitas como as do meu rival?
Eriçou-se um dos galos.
Então o segundo brigão fanfarrão fez tilintar as esporas, arranhou a terra com as garras e disse:
E será que ele canta tão alto, sonoro e bonito como eu? Espera aí!!
E ambos os galos começaram a lutar novamente. A poeira subia em nuvens, as penas bonitas voavam para os lados, o quintal cheio de gritos.
E quando a enorme nuvem de poeira assentou, pousou no chão, todos os habitantes do quintal esfregaram os olhos, sacudiram de si a grossa camada de poeira e sujidade que apareceu depois da batalha dos galos, e viram um espetáculo lamentável.
Ambos os rivais estavam sujos, com lixo nas asas, com penas arrancadas, caudas despenteadas. As cristas rasgadas pendiam para um lado, as patas arranhadas até sangrar, a respiração dos lutadores não conseguia normalizar-se.
De cansaço, ambos os galos caíram numa poça, exaustos nem conseguiam falar, quanto mais gritar e discutir direitos. As suas vozes ficaram roucas dos gritos altos, dos bicos saía apenas um silvo doloroso.
Então saiu o ganso importante e disse:
O que é que vocês fizeram, lutadores falhados? Eh vocês, brigões, convencidos, fanfarrões... Olhem agora cada um para si próprio e depois um para o outro. E quem de vocês é agora o melhor, o mais bonito, o mais brilhante e o mais cantador?
Os galos brigões não conseguiram dizer nada em sua defesa.
Desde então, no quintal das aves e em toda a aldeia ficou mais calmo e tranquilo. Os galos deixaram de discutir, de se gabar um ao outro, e passaram a viver em harmonia e paz.
E de manhã, à vez, limpavam as penas brilhantes e entoavam o seu sonoro e melodioso:
Cocorocó!
Cocorocó!
Cocorocó!