Um dia, Filipe meteu-se numa grande enrascada, ou melhor — num grande copo de gelado. Isto aconteceu logo depois de ele ter engolido estrelas e ter ficado com dor de garganta durante uma semana inteira! Por causa disso, o pequeno dragão dormia mal à noite e andava durante o dia apático e distraído.
Foi assim que caiu mesmo dentro daquele gelado. E ficou preso até ao pescoço. Não conseguia sair daquele copo pegajoso e frio. Ficou lá meio dia sentado no gelado. Só lhe restava esperar por ajuda e comer. E o frio para dragões que cospem fogo, mesmo que pequenos, é algo fatal!
Bem, como é que o Filipe podia saber que não devia comer gelado? Ele só comeu um bocadinho — meio copo, mas as consequências foram graves!
Não, ele não ficou constipado nem apanhou amigdalite, nada disso. Mas agora nunca poderia tornar-se num verdadeiro dragão que cospe fogo! Na verdade, os dragonetes ainda não conseguem cuspir fogo como os adultos.
Mas se se esforçarem, conseguem deitar fumo e até faíscas vermelhas alegres. Depois do gelado, o Filipe perdeu completamente essas capacidades.
Ficou terrivelmente triste com a perda da sua atividade favorita — não conseguia fazer nem fumo nem faíscas. O amigo Frederico tinha pena dele, Tomás também se compadecia do Filipe, mas havia quem gozasse abertamente com ele. Félix não perdia uma oportunidade de o provocar.
Fátima estava sempre a dar sermões e tentava mandá-lo para o posto médico, e os adultos nem sequer prestavam atenção. Não restava senão conformar-se, mas de vez em quando ficava muito triste.
Foi assim que um dia estava sentado num ramo a entristecer-se baixinho. E viu algo! O parque estava deserto, apenas uma pessoa estava num banco ao longe. "Parece ser uma cria ainda," — pensou o Filipe. — "Estará a chorar?"
De facto, no banco estava uma menina pequena a chorar. Chorava tanto que o Filipe teve pena dela. Mas não se atrevia a voar mais perto.
Que coisa. Uma miúda, sem dúvida. Olha como grita.
Disse o Frederico, que apareceu do nada.
Nunca vi uma tão barulhenta. Embora haja muitas delas por aqui debaixo da árvore.
Já houve mais barulhentas.
Disse o Félix, que voou atrás do Frederico.
Filipe, o que fazes aqui? Ainda sonhas em deitar fumo? Ou simplesmente encontraste companhia para chorar?
O Filipe ficou todo inchado, estava tão farto daquele Félix.
Que estranhos são, os humanos.
Disse a Fátima. Ela também pousou no ramo deles.
Que monstros enormes!
Sim, é verdade, enormes.
Concordou o Frederico.
Mais valia serem como nós. Então talvez eu até ajudasse... bem, aquela que está a chorar.
O Filipe ouviu-os, ouviu e não aguentou. Voou direto para a menina. Pousou ao lado daquela enorme chorona na beirinha do banco e ficou logo sem saber o que fazer. O que dizer? Como a consolar?
E ficou simplesmente a olhar atentamente para a menina. Ela de repente calou-se e olhou assustada para o Filipe.
Tu... ainda... hic... quem é-és tu?
É compreensível, de tanto chorar — queiras ou não, ficas a gaguejar.
Sou o Filipe. E tu?
E eu sou a Ana. De onde vens?
Respondeu a menina.
Eu? Da árvore dos dragões, daquela ali.
E o Filipe acenou na direção de casa.
Uau! Não sabia que alguém vivia lá. Eu vivo numa casa, mas não se vê daqui, é longe.
Então porque estás aqui sentada sem ama, se a casa é longe?
Não tenho ama. Estava a passear com a minha mãe no parque, e ela perdeu-se.
O Filipe viu que as coisas estavam mal, agora ia começar a chorar outra vez.
Queres que te dê uma prenda?
Com estas palavras, o dragão agarrou do chão uma folha com uma lagarta e levou-a à sua nova amiga. Ela saltou do banco a gritar e acenou-lhe com as mãos.
Pronto, pronto, não preciso de prendas, já não estou a chorar!
Sentou-se outra vez e até sorriu um bocadinho.
Mais vale mostrares-me como cuspes fogo! Os dragões cospem todos fogo, não é?
Aí chegou a vez do Filipe ficar sombrio.
Não consigo.
Resmungou ele.
Bem, então não faz mal, senão ainda queimas o banco.
Concluiu ela. De repente, começaram a voar para junto deles os outros dragonetes de todos os lados. A Fátima caiu de repente mesmo em cima da cabeça da Ana.
Ai.
Assustou-se a menina. E o Félix voou mesmo para o nariz dela e começou a cheirá-la ostensivamente.
Que gigante. Embora não seja tão assustadora como parecia de longe!
Disse o Frederico.
E que pelo comprido tem na cabeça.
O Tomás puxou-lhe uma madeixa loira de cabelo.
Ai!
Os lábios da menina incharam de mágoa e os olhos voltaram a brilhar.
Porque é que a estão a chatear?
Indignou-se o Filipe. Mas nenhum dos seus amigos pensou em parar, discutiam a menina em voz alta, tocavam-lhe no cabelo, no nariz e espreitavam-lhe os ouvidos. Ela encolheu-se toda e voltou a chorar. Foi aí que o Filipe não aguentou pela segunda vez. Ficou zangado e soprou!
Mas não foi fogo — da sua garganta saiu de repente um verdadeiro turbilhão de neve. Uma rajada de neve acertou no nariz do Félix, e as orelhas do Frederico e da Fátima cobriram-se de geada.
Isto é que é!
Alegrou-se o Frederico. Todos os dragonetes voaram para mais perto do surpreendido Filipe e começaram a pedir-lhe que repetisse o truque.
Ele soprou-lhes com prazer outra vez, provocando uma ligeira sequência de flocos de neve e arrefecendo as caras de todos.
Então é por isso que não conseguias cuspir fogo, tu cuspes neve!
Percebeu a Ana.
Oh, a minha mãe apareceu. Mãe! Adeus, Filipe!
E a menina correu para a mãe. E o feliz dragão que cuspia neve acenou-lhe.