Muito, muito longe, para além de mares azuis profundos, em tempos antigos e remotos, quando nada além de pássaros e borboletas voava, numa ilha abandonada nos mares e oceanos chamada Matemática, havia um velho, muito velho e enorme palácio.
Era tão longe que as pessoas apenas ouviam falar dele, mas exceto os pássaros mais fortes, ninguém o tinha visto. Neste palácio, durante séculos, vivia a Família dos Algarismos.
Os algarismos nunca abandonavam o reino que era governado e protegido pelo antigo Velhinho-Pinheiro. O velho frequentemente sentava-se numa poltrona profunda e macia e pensava, meditava sobre a vida.
Numa das salas vivia o Um. Era muito orgulhoso e teimoso. Orgulhava-se de ser sempre o primeiro em tudo e em qualquer lugar. O Um era um pouco parecido com um passarinho, pois tinha um biquinho igual. Mas o problema era que andava numa única perna, por isso frequentemente caía e reclamava descontente sobre isso.
A vizinha do Um era o Dois. Era quieto e calmo, ao contrário do Um que era briguento. Mais de uma vez pediu ao dono do palácio para o mudar para outro lugar, mas o Velho escapava-se da resposta de forma astuta e explicava que isso era absolutamente impossível, senão tudo se desmoronaria.
Mas o Dois não perdia a esperança e acreditava que um dia se livraria da vizinha chata, reclamona e de uma perna.
A outra vizinha do Dois era o Três. Vivia por si só, não gostava de companhias barulhentas e não era particularmente amigo de ninguém.
O Quatro era de certa forma parecido com o Um, mas tinha um carácter completamente diferente. Era alegre, estava sempre de bom humor, saltava pelo palácio, cantarolando uma canção.
E embora às vezes ficasse triste por não ser tão bonito como o Cinco, os pensamentos tristes desapareciam rapidamente e tudo voltava ao seu lugar.
O Cinco ocupava um quarto no segundo andar. Andava pela sala à procura do seu lugar, pois era bonito e importante, por isso tinha sempre de estar no centro das atenções.
À esquerda do Cinco tinha uma vizinha — o Seis. Tinha uma alma muito bondosa. Estava sempre pronto para ajudar todos os algarismos, mas eles não abusavam da sua bondade.
O Sete estava localizado um andar acima. Dotado de respeito e amor por si mesmo, era impecável. O Sete presumia que todos os algarismos estavam envolvidos em mistério. À noite, quando o Oito e o Nove o visitavam, tentavam desvendar o segredo do palácio, e até presumiam que havia vida para além das suas paredes.
Assim teria continuado a sua vida, se o Velhinho-Pinheiro, durante uma limpeza geral, não tivesse encontrado uma porta secreta. Estava na cave do palácio. Sem hesitar muito, chamou todos os algarismos para abrirem juntos esta porta fechada com um ferrolho.
Todos saltitaram para a cave. Sem grande dificuldade, apenas com um toque leve, o ferrolho deslizou e a porta rangente abriu-se lentamente.
Todos os amigos-algarismos ficaram terrivelmente surpresos: a sala não tinha cantos, nem tecto nem chão. Não havia móveis, nem uma migalha, nem uma partícula de pó. Absolutamente NADA!
É o Zero!
Exclamaram todos os algarismos em uníssono.
Do nada apareceu um verdadeiro Zero redondinho e barrigudo. Nenhum dos algarismos sabia nada sobre ele. Ainda menos o tinham visto e nem sequer sabiam como era. Mas todos sentiram imediatamente que era ele — o Zero.
O Um quase desmaio com o que viu, mas o Zero rapidamente e habilmente ofereceu-lhe o seu ombro redondinho.
É o Dez!
Disseram todos em coro.
O Dois tinha medo de ficar para trás e rapidamente posicionou-se perto do Zero.
É o Cento e Dois!
Anunciaram os algarismos.
O Três, contente, valseando, pegou no barrigudo Oito e começaram a dançar.
Ohhh, Trinta e Oito! Oitenta e Três!
Gritavam continuamente os algarismos contentes e terrivelmente surpresos. O Cinco não resistiu e também decidiu juntar-se a eles. Todos os algarismos formaram uma roda em volta do Zero, dançavam e criavam combinações espantosas, completamente desconhecidas para eles até então.
O Velhinho-Pinheiro tirou um velho caderno e anotava rapidamente algo nele.
A diversão continuava, ninguém queria voltar para os seus quartos. O segredo do palácio tinha sido desvendado, todos compreendiam o seu propósito. Cada algarismo e o antigo Velhinho finalmente encontraram o sentido da vida.
Os habitantes do palácio saíram das paredes, derramaram-se para fora do palácio, rolaram pelas encostas, contando tudo o que encontravam no caminho: árvores e arbustos, flores e pássaros.
Durante esta atividade, a noite caiu sobre eles e então começaram a contar as estrelas no céu. Para facilitar, o Velhinho-Pinheiro ensinou-os a somar e a multiplicar. Assim era muito mais rápido e fácil fazer as contas.
E de manhã os algarismos viram uma beleza indescritível: no oriente a aurora avermelhava, o sol nascia.
Os algarismos estavam um ao lado do outro e compreendiam que não viveriam mais nos seus pequenos quartos, era hora de conhecer o Mundo.
Para onde quer que os algarismos se dirigissem, eram sempre acompanhados pelo Velhinho-Pinheiro. Ele dava-lhes confiança, oferecia serviços de adição e subtração, divisão e multiplicação.
Desta forma, os algarismos estabeleceram-se entre as pessoas, e a vida na Terra tornou-se muito mais simples. Surgiram novos objetos que utilizavam os mais variados cálculos: máquinas e comboios, foguetes espaciais, rádios e televisões, telefones e computadores.
Todos os algarismos vivem ainda hoje entre a humanidade. E ninguém se lembra onde fica aquela ilha tão, tão distante, onde está o velho, muito velho e enorme palácio. E será que ainda lá está?
Muito provavelmente já se desmoronou há muito tempo, e a ilha tornou-se intransitável, coberta de árvores e arbustos. Mas a vida na Terra fervilha e borbulha, o progresso avança, graças ao Velhinho-Pinheiro e à sua alegre companhia de Algarismos tão diferentes, mas muito úteis.