Numa pequenina cidade, muito longe de Lisboa, vivia uma menina chamada Maria. E parecia ter tudo — era bonita, inteligente e já estava pronta para entrar na escola primária. Mas tinha um desejo enorme de estar na Internet.
Mãe, por favor, compra-me um tablet.
Ouvia-se todos os dias em casa.
Mas a mãe resistia no início. Vez após vez perguntava:
Mas para que precisas de um tablet, filha? Não tens nada para fazer? Olha a natureza que temos aqui, que maravilha…
Mas a Maria não desistia e voltava à carga:
Quero ir à Internet, como a Catarina. Há lá tanta coisa, mãe… A Catarina diz que há aplicações educativas. Com o tablet vou ser tão inteligente na escola!
E um dia o coração amoroso da mãe amoleceu. Juntou as suas poupanças e pediu ajuda aos vizinhos, e trouxe um tablet. Entregou-o à Mariazinha radiante de felicidade, sorriu para os seus pensamentos e foi tratar da horta.
A Mariazinha sentou-se no sofá com o tablet e começou a brincar. E realmente havia lá tanta coisa… Podia conversar com os amigos, ver vídeos coloridos, muitas imagens brilhantes e música animada.
E a Maria nem reparou como o dia inteiro passou. A mãe veio ter com ela e estalou a língua irritada:
Então estiveste aqui sentada o dia todo? Anda mas é para a cama!
Só mais cinco minutinhos!
Mas a mãe foi inflexível:
Já são dez da noite! Todas as meninas bem-comportadas já estão a dormir.
Relutante, a Maria largou o tablet e foi para a cama. E sonhou que se tornava a pessoa mais popular da Internet. Por isso, no sonho, a Mariazinha sorria amplamente, encantando a sua mãe.
O dia seguinte também passou. Só que a mãe da Mariazinha ia receber visitas. Passou o dia todo a trabalhar em casa, e a Mariazinha recusava-se a ajudar. A mãe teve de fazer tudo sozinha: pôr a mesa, arrumar a casa e trabalhar na horta.
A Maria apenas ignorava os seus pedidos, pois a Internet era mais interessante. E mesmo quando a Catarina veio com a mãe, a Maria nem sequer virou a cabeça na sua direção. A mãe apenas abanou a cabeça consternada e foi-se embora.
E a Maria nem reparou como o dia passou, e adormeceu com o tablet nas mãos.
Não se sabe quanto tempo dormiu, mas acordou num quarto escuro, muito escuro.
Mããããe.
Chamou a Maria, mas ninguém respondeu. Assustada, a menina levantou-se de um salto, calçou os chinelos e correu pela casa. Mas não havia ninguém.
Ela foi-se embora.
De repente ouviu-se uma voz. E com horror a Maria descobriu que vinha do tablet.
O que aconteceu? Para onde foi?
Perguntou a menina com voz trémula.
Será que importa? Já é outubro, ela foi para a cidade.
Outubro? E eu? Eu devia ter entrado na escola!
A Maria agarrou a cabeça com as mãos, consternada.
Precisas disso para quê? Eu tenho aqui tudo: nós os dois vamos aprender o programa escolar sozinhos.
À Maria até pareceu ver um sorriso malicioso no ecrã preto.
E a Catarina? A mãe, os colegas? Não, isto não pode ser.
Isso são tretas, vais esquecer depressa. A mãe não volta, está zangada contigo. E vamos ficar nós os dois para sempre. Vou-te mostrar tantos jogos, tantos vídeos. Queres?
Nãããão.
A Maria recuou assustada.
Não-não-não-não.
E começou a gritar. Sentou-se no chão e simplesmente começou a gritar… Até acordar de repente.
O que foi, Mariazinha? Tiveste um pesadelo?
A mãe assustada apareceu à porta do quarto.
Nada, mãezinha.
A Maria correu para a mãe e abraçou-a com força.
Perdoa-me. Agora vou sempre, sempre ajudar-te em casa. E este tablet vou deitá-lo fora.
A mãe espantada acariciava a cabeça da Maria e não percebia o que tinha acontecido. Talvez seja para melhor. Mas a Maria voltou a ser como antes, e não ficava mais de uma hora no tablet. Senão voltavam os pesadelos horríveis.