A ama Agrafena é uma das dragonas mais velhas, não é por acaso que o seu nome começa com A. Usava sempre uma enorme touca cinzenta, óculos velhos e detestava travessuras!
E dessas havia mais que suficientes no quarto com a letra F. Ora o Frederico queimava um buraco na fronha com faíscas, ora o Filipe enchia meio quarto de neve — tinha de se varrer tudo atrás dele.
E quando os dragonzinhos se dispersavam pela ama pelo parque, depois era procurá-los e chamá-los, mas não conseguia.
Por isso, Agrafena tinha de estar constantemente a mandar calar os dragonzinhos e a repreendê-los pelas suas travessuras. Mas na verdade ela amava-os, e antes de dormir contava-lhes sempre histórias. Mágicas, extraordinárias.
Por elas valia a pena aguentar todas as ralhadelas e todos os silêncios. Certa noite, antes de dormir, a ama contou uma história nova. Havia lá algo sobre uma criatura desconhecida chamada mamute e sobre as suas aventuras, mas o mais interessante foi no final, quando ele encontrou a mãe.
E quem é a mãe?
Perguntou de repente o Filipe. Parecia que já tinha ouvido essa palavra algures.
Mãe é aquela que tem filhos.
Disse a ama.
Mas nós também somos filhos?
Perguntou pensativa a Fátima.
Claro.
Então onde está a nossa mãe?
Perguntou o Frederico com ar magoado.
Vocês não têm mãe. Chega de perguntas, está na hora de dormir.
Disse Agrafena severamente e, virando-se, suspirou. Quando se voltou, viu que ninguém no quarto dos dragões tinha intenção de dormir, olhos tristes olhavam-na de todos os lados.
Está bem, um rebuçado verde cada um e a dormir.
Decidiu ela. Todos animaram-se imediatamente, a tristeza desapareceu como por magia. A ama percorreu pacientemente o quarto a distribuir consolo. Apenas um dragão não aceitou o rebuçado. O Filipe.
Pega, verde é o teu favorito.
Disse Agrafena com voz persuasiva.
Não me apetece.
Disse o Filipe tristemente.
Bom, como quiseres.
Disse a ama e apagou a luz. Não passaram cinco minutos e todos começaram a ressonar em uníssono e com fumo. Mas o que é isto? De repente pareceu ficar mais frio. Ouviu-se um estranho som rítmico no chão de madeira.
A ama percebeu logo o que se passava e aproximou-se da cama do Filipe. Ele chorava lágrimas geladas, e já todo o chão à volta dele estava coberto de neve da sua própria respiração fria.
Sh-sh-sh-sh.
Mandou ela calar, quando ele começou a chorar alto.
O que é que se passa agora?
Lembrei-me da minha amiga, a Ana. Ela chorou tanto quando a mãe dela se perdeu. E eu nunca vi a minha mãe... Uh-uh-uh-uh...
Chorava o Filipe.
Chega, vais congelar tudo aqui. Anda, levanta-te, vamos.
Acenou ela.
Onde?
Soluçou o Filipe, cobrindo a ama com uma porção de neve molhada.
Vais ver.
A ama abriu a porta do quarto.
Segue-me!
E o dragão voou obedientemente atrás da velha Agrafena para o céu noturno. Voaram quase até ao topo da árvore dos dragões. Aterraram num ramo e seguiram a pé. A ama levou o Filipe quase até ao tronco.
Foi neste ramo que te encontrámos, na semente mais bonita com reflexos lilases.
A ama sorriu com a recordação.
Eras tão pequenino e enrugado, mas tão querido e muito quente! Fumegavas como uma locomotiva!
Então nasci numa árvore?
Sim, como todos nós. Somos frutos da árvore dos dragões.
Então a nossa mãe é uma árvore vulgar?
Disse o Filipe desiludido.
Porque vulgar?
Ela tocou carinhosamente na casca.
Aproxima-te.
O Filipe aproximou-se timidamente e também tocou na árvore. A casca era áspera e rugosa, mas o dragão sentiu de repente um calor indefinido na sua patinha de dragão. O Filipe ganhou coragem e abraçou a árvore, abrindo as patas tão largamente quanto podia.
A árvore sussurrou em resposta com a sua folhagem e aqueceu a sua cara fria das lágrimas.
E o Filipe sorriu. Agora sabia, a mãe estava ali!