A História do Caracol
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A História do Caracol

Autor:
Um conto ortodoxo para crianças em idade pré-escolar sobre um caracol viajante. Ah, e que curta foi a sua jornada.

Um caracol foi para além do mar... (provérbio popular russo)

A chuva batia nas folhas do jardim. As peónias e as rosas inclinavam tristemente as cabeças, deixando cair pétalas delicadas sob os golpes de gotas frias. Vários caracóis estavam sentados, amontoados sob uma grande folha de bardana.

Mãe, por que nos chamam caracóis-de-vinha se vivemos aqui, nos arredores de Moscovo, onde nunca houve vinha?.. Onde faz tanto frio…

Sussurrava desesperadamente o mais pequeno dos caracóis.

Sabes, filha, os nossos antepassados viviam na costa de um mar quente do sul, mas a sua própria imprudência levou-os a estas terras selvagens. Caracóis imprudentes meteram-se numa caixa de uva madura e suculenta – sabiam que não deviam fazer isso, que a lei da natureza os obrigava a contentar-se com as bagas do jardim e não tocar nas que o homem tinha colhido… Mas a tentação era tão grande! Havia tantas bagas maduras, perfumadas, deitadas na caixa deixada no chão… Os caracóis pensavam que iam apenas provar um pouco e depois iriam embora. Mas era tão saboroso, as bagas atraíam-nos, não os deixavam ir… Os nossos antepassados não repararam como a tampa se fechou e a caixa foi levada para um lugar desconhecido.

Respondeu tristemente a sua mãe.

E devemos estar gratos por terem conseguido chegar a este jardim, claro que não há vinha aqui, mas ainda assim podemos existir de forma precária.

Terminou com tom moralizador a filha mais velha da caracol-mãe.

Sim…

A mais pequena mexeu tristemente nas antenas, e de repente os seus olhinhos brilharam com entusiasmo – mas será que não é possível voltar?! Ela tremeu e, alegre com a ideia feliz que lhe tinha ocorrido de repente, quase gritou

Mãe! Irmãs, irmãos! Vamos voltar! Afinal, existe neste mundo este país maravilhoso onde viveram os nossos antepassados! Vamos para lá!

Um caracol foi para além do mar…

Sorriu com desdém a irmã mais velha, enquanto a mãe disse tristemente:

Caracol, pensa bem, que distância é essa! Nem consegues imaginar uma distância assim!..

O pequeno caracol não respondeu nada. Escondeu-se na sua concha e começou a pensar intensamente. …Claro que até ao mar deve ser muito longe. Mas é lá, precisamente lá, no sul ensolarado, que é o seu lugar! É o lugar de todos os caracóis-de-vinha que, por um triste mal-entendido, acabaram nestas terras selvagens. E se caminhar durante muito, muito tempo – não importa quanto – chegará lá, para onde a sua alma tão desesperadamente quer ir!

Na manhã seguinte, acordando cedo, o Caracol partiu. Lembrava-se de que o sul era o lado para o qual as árvores se voltavam sem musgo. A nossa heroína também conhecia outros sinais pelos quais todos os habitantes da floresta e do jardim sabem encontrar o caminho.

… Que bala deliciosa! Está bem perto – a apenas três metros de distância. Meia hora a rastejar! Bem, e depois?… Nada de assustador em desviar-se do caminho. Depois recuperamos.

Ai, outra bala! O que fazer? Assim poderíamos gastar um dia inteiro à toa… Talvez não vá atrás dela?.. Ah, mas por que, por que é que agora, precisamente agora, tenho de renunciar a esta bala?! Como gostaria de a provar! Não, isto não pode ser. Se me forçar a não comer esta bala – decidiu o caracol – vou ficar de mau humor. E com o mau humor não vou conseguir rastejar muito longe!

Que boas balas! Cinco ao todo. E agora – à estrada! Sem mais desvios.

Eis como é a Caracol – uma viajante heróica! Já está a rastejar há quase vinte minutos em linha reta para o sul! Quantas dezenas de centímetros percorreu? Ou metros…

Mas o que é isto?!. Que horror! Uma fileira de pedras! Cinquenta centímetros de altura! – O caracol subiu a primeira pedra. Afiada! Dura! Brr! A segunda é ainda mais afiada. A terceira… E quantas mais há à frente?.. Não, isto é insuportável!

O caracol nem reparou como se viu no chão. Não consegue vencer esta montanha! Teoricamente, claro, seria possível – se continuasse a subir, ignorando o facto de ser duro, escorregadio e espinhoso… Mas… Não, não é para ela! Afinal, será que é realmente necessário ir tão rigorosamente para o sul? Posso ir ao longo da fileira de pedras – talvez chegue aonde preciso…

Uma hora, duas, três passam na estrada… Anoitece… Escurece…

Ei, Caracol! Onde é que andaste o dia todo?

Rosana, mas tu de onde vieste daqui?!!

Ao ver a irmã mais velha, a nossa conhecida quase perdeu a sua casa de madrepérola de puro espanto.

Como assim de onde?! Olha à tua volta, onde é que estás?

A irmã ficou igualmente chocada.

Ai… Eu pensava que estava a ir para o sul… Só que não quis subir a parede…

O caracol reconheceu com horror as peónias e rosas familiares. Lá estava a habitação dos caracóis – a grande folha de bardana verde-escuro…

Durante três dias, os irmãos e irmãs riram da infeliz viajante. E ela estava sentada, encolhida na sua concha, e nem sequer queria comer as guloseimas que a mãe carinhosa lhe trazia. Não queria, fazia birras, mas, bem, comia – não podia morrer à fome! E a mãe sabe bem o que trazer – flores e bagas tão deliciosas que é impossível recusar.

A pobre Caracol não conseguia compreender como é que tinha querido ir para um objetivo alto e maravilhoso, e na verdade tinha rastejado sem sentido entre balas saborosas e pedras afiadas.

O tempo passou. A nossa conhecida cresceu, tornou-se mais séria e mais sábia. O sonho do sul ensolarado – a pátria desejada dos caracóis-de-vinha – nunca a abandonou.

Com a memória da viagem falhada, o Caracol aprendeu a superar obstáculos. Um dia decidiu subir uma grande pedra estriada, perto da qual crescia a sua bardana. Levou quatro horas a subir, magoou toda a perna, mas conseguiu. Depois passou dois dias deitada, recebendo os cuidados ternos da mãe e afastando as gargalhadas das irmãs.

Queres realmente ir para o sul? Realmente queres? Ou apenas te deleitas com este sonho, elevando-te acima dos outros caracóis com a sua ajuda?

Um dia a mãe perguntou seriamente ao Caracol.

Mãe!.. Mãezinha!.. Não sei… Só penso nisso, não quero mais nada… Mas talvez seja apenas um sonho de criança… Afinal, provavelmente nem consigo chegar à beira da aldeia. Sou tão lenta… E nem sequer sei como superar obstáculos… Mas o pensamento do sul parece-me ser o principal na vida, o seu objetivo e significado!

A nossa conhecida ficou chocada.

…Interessante, quanto é que ela já percorreu?.. Não se vê a fileira de pedras… Provavelmente as pessoas desmontaram-na. Mas o que é isto? – O Caracol parou à beira de uma grande poça. Como é que a atravessa? Nem vau nem desvio… Desanimado, o caracol sentou-se numa folha à beira da água turva. De trás de uma nuvem apareceu o sol. Começou a aquecer... E aqui não é assim tão mau! Ai, que bagas! – Um arbusto de groselha-preta cresce à beira da lagoa. Será que isto é o mar?.. E a groselha é a vinha… Bem, e daí, as bagas são pequenas! Mas são doces! Melhor groselha perto da concha do que vinha atrás da montanha...

Depois de comer as bagas, o Caracol deitou-se para descansar sob o arbusto de groselha. A ideia de se instalar aqui agradava-lhe cada vez mais. O resto do dia o caracol desfrutou, aquecendo-se ao sol e pensando preguiçosamente se deveria continuar a sua jornada.

À noite arrefeceu novamente, e começou a chover aquele chuvisco desagradável que se tinha tornado habitual naquele ano…

Bastante molhada e tremendo de frio até à manhã, a nossa conhecida já se envergonhava da sua inconstância, que a tinha levado a tomar o primeiro descanso, dado para se fortalecer na difícil jornada, como o seu objetivo final.

Ela contornou a poça, gastando três dias nisso. Depois teve de vencer um dique de argila que se erguia acima das cabeças da mais longa das junças… Depois de o ultrapassar, o Caracol quase caiu num abismo cheio de água turva, chamado vala pelas pessoas. Foi então que a nossa viajante compreendeu o horror da sua situação: atrás – uma parede quase intransponível, à frente – uma vala que ameaçava afogá-la.

O que fazer? O caracol ainda não tinha tido tempo de se assustar adequadamente – e de repente começou a acontecer algo completamente incrível: ouviram-se batidas altas, pancadas, sons de mastigação, e, aparecendo de algum lugar acima, começou a cair sobre ela um objeto enorme de forma indefinida.

Arriscando-se a cair na água, o Caracol rastejou o mais rápido possível para o lado, apressando-se a abrigar-se do perigo. A terrível massa negra aproximava-se cada vez mais, descendo diretamente sobre a sua cabeça… Senhor, tem piedade! …O objeto assustador caiu a uma fração de milímetro do caracol, que nem reparou como se viu na argila pegajosa e subiu com ela para o ar acima da vala.

Pelos torrões de argila que caíam constantemente na água, o Caracol começou a subir em direção ao meio do objeto assustador em que se viu tão de repente. Assim… Mais um pouco… «Mas isto é uma pessoa!» – levantando a cabeça, o Caracol viu que estava sentado na bota de borracha de um rapaz que, tendo saltado habilmente sobre a vala, se dirigia para a saída do jardim.

«E agora como é que saio daqui?» – perguntava-se a nossa viajante. Bem, a pessoa parece estar a ir na direção certa… Que seja feita a vontade de Deus… Tendo caído na bota, o Caracol já tinha atravessado a terrível vala e tinha sido transportado uma distância que teria levado duas semanas a percorrer com as suas próprias forças… Vamos ver o que acontece a seguir.

E a seguir foi a travessia de uma estrada que deixou a pobre Caracol atordoada com um estrondo indescritível e o piscar de criaturas gigantescas que não podiam ser descritas. A nossa conhecida não sabia se deveria estar assustada, lançada pelo destino para lugares tão terríveis, ou alegre porque a Providência Divina a estava a transportar através de obstáculos intransponíveis pelas suas próprias forças.

Às vezes fechando os olhos com força, às vezes abrindo-os bem, encolhida numa bola, o Caracol (parecia-lhe que até a sua concha tinha encolhido), não parava de sussurrar para si mesma: «Glória a Ti, Senhor! Como me levas – não sei, mas para onde – acredito… Acredito que me levarás para onde eu mesma não conseguiria chegar…»

E o rapaz continuava a caminhar. Eis que se aproximou de altos postes de ferro, acima dos quais se via uma espécie de toldo semitransparente… «Ai-ai-ai!» – o rapaz de repente levantou a perna e …chutou uma garrafa que estava deitada perto da paragem de autocarro. Com o impacto, o caracol caiu da bota e, virando-se no ar, voou numa direção desconhecida. Caiu na bolsa de uma mulher.

O que é que vai acontecer agora?.. O Caracol já estava tão cansado de pensar, de se preocupar e de absorver novas impressões que, ao encontrar-se na bolsa escura, deitado em algo macio, afastou os pensamentos ansiosos que o perturbavam e, rezando: «Senhor, coloco-me nas Tuas mãos!», adormeceu.

Depois de dormir bastante tempo, acordou na escuridão total. Em algum lugar perto havia um zumbido e um rugido estranhos. Ao ouvi-los, a nossa viajante fechou os olhos com força e começou a rezar novamente… novamente não reparou como adormeceu… Em sonhos parecia-lhe que tudo à sua volta se movia, e ouvia palavras entrecortadas: «voo 11-20… embarque… passageiros…».

O Caracol não acordou.

Um raio de sol quente, brincando, espreita pela abertura da bolsa, faz cócegas no caracol encolhido na sua concha. Este mexe confusamente nas antenas e rasteja em direção à saída do seu refúgio – em direção ao raio morno. «Senhor, o que é que vai acontecer lá em cima? O que me espera?» (O Caracol nem reparava que tinha completamente desaprendido a pensar e a preocupar-se simplesmente – estava constantemente a dirigir-se ao Senhor). Eis que já chegou à abertura…

A luz brilhante e o ar fresco, impregnado de aromas até então desconhecidos, deixaram a nossa viajante atordoada. Ouvia-se o som das ondas, o canto dos pássaros… O caminho, por onde caminhava lentamente a mulher que se tinha tornado companheira do Caracol, serpenteava ao longo de vinhedos espalhados numa encosta suave… Ao ver os cachos dourados a amadurecer sob o sol do sul, a nossa heroína empurrou-se decididamente para fora da bolsa e rolou para a relva.

Uma hora depois, estava sentada numa folha de vinha e contava aos caracóis reunidos de toda a região sobre as desventuras de várias gerações dos seus parentes e sobre a grande misericórdia de Deus, revelada ao Caracol na sua difícil jornada…

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